• samirazorkot

Para quem não sabe, originalmente, "As Nove Luas" foi escrito pela perspectiva de Nicholas Trindade. Quando comecei a história, ela foi criada em conjunto com "As Treze Irmãs", mais especificamente para metade do final do livro, quando as coisas ficaram mais pesadas no enredo.


Na época, eu sentia que precisava conhecer esse personagem antes de colocá-lo dentro daquele cenário. Afinal, qual pessoa melhor se encaixaria com a Agatha? Por isso, existem muitas referências a lobos solitários, chupa-cabras e os reinos ao Norte do continente no momento que Agatha está em Garcia.


Um dia, espero poder publicar uma releitura das mais de cento e vinte páginas que escrevi lá em 2018. Muito da proposta e do rumo que a história seguiu foram diferentes do que os leitores viram em "As Nove Luas". Lendo esses dois paralelos, a essência de devoção de Nicholas é a mesma.


CONTÉM SPOILER DE "AS TREZE IRMÃS":


Segue trecho de "Homem em Pele de Lobo:


Abro os olhos para a escuridão.


Meu corpo está encharcado de suor, os músculos se contraindo com o movimento súbito. Sento na cama, a pulsação ricocheteando nos ouvidos.


Fazem quatro anos e eu não consigo fugir do mesmo sonho.


Me levanto da cama e jogo os lençóis para o lado, visto uma calça metodicamente e caminho para fora da cabana. O vento frio alivia o calor pulsando do meu corpo, mas não funciona muito com meus pensamentos.


Faltam dois dias para lua cheia e meu único alivio é saber que quando ela chega, os sonhos não me alcançam. Quando se veste a pele da besta, não se tem raciocínio, só instinto e necessidades básicas.


Sento nos degraus e escoro minha cabeça no pilar de madeira. Minha pele parece pálida nessa hora da noite, como se eu não visse a luz do sol por luas. Me sinto cansado e fraco, um resultado constante das noites mal dormidas.


São sempre dois sonhos, um atrás do outro.


O primeiro é uma mulher negra como eu, com longos cabelos castanhos, ela tem olhos de Outro Mundo, o esquerdo parece um tom de terra molhada enquanto o direito lembra o marrom alaranjado das folhas de outono. É ridículo descrevê-la dessa forma, porque nunca fui o tipo que romantiza as pessoas. Quando vejo uma pessoa na rua, não passa na cabeça que ela tem cabelo cor de fogo, loiro como milho ou preto como à noite.


Só o fato de compará-la com a natureza já é estranho por si só.


No sonho, eu estou sendo segurado por dois homens, um deles tem o pé afundado na minha coluna, me obrigando a estar ajoelhado enquanto o tipo mais repugnante de ser surge na minha frente.


O anjo tem cabelos brancos acinzentados, sua pele amarela clara e olhos de um azul-violeta. Veste roupas estranhas, nada que eu tenha visto antes. Apenas essas sensação de riqueza no tecido e no andar confiante.


Ele arranca algo das costas da mulher e a escuto gritar. Ela não implora por misericórdia, ao contrário, há uma fúria tão grande naquele corpo miúdo e magro. Muita raiva para só uma pessoa.


Então, o anjo faz o maior ato de violência e repugnância que um homem pode tomar. Me debato, tentando me soltar, mas não adianta. Ele rasga suas roupas e começa a tomar seu corpo como se fosse dele.


Sinto nojo. Dele e de mim. Porque quem quer que seja essa mulher, sinto que é minha responsabilidade protegê-la. Sinto que é minha culpa, que Temperança foi colocada naquela situação.


Quero o matar e abrir seu peito com as minhas mãos.


Mas estou fraco e por maior que seja meu esforço, não consigo salvá-la. Não importa quanto me debato e grito pelo seu nome. Não importa quantas vezes eu amaldiçoe o Rei Ba'al, ele não para.


Escuto um latido e volto para a realidade. Respiro fundo, colocando a mão sob meu peito e escutando o coração martelar contra a caixa torácica.


Pintado estava parado do meu lado, seu focinho empurrando meu braço. Eu suspiro e abraço o cachorro, meus dedos alisando seu pelo curto.


O primeiro sonho era ruim o suficiente, mas por alguma razão, o segundo sempre parecia pior. Mais recente, mais próximo. Como se minha falha estive palpável, afirmando que eu a perdi novamente, tudo por culpa da minha incapacidade.


Começa com a sensação de ser empurrado pela multidão eufórica. Aquele era um espetáculo para a população nobre da cidade. Algo ruim havia acontecido, um crime imperdoável. A energia do lugar é terrível, como se o espirito da vingança tivesse tomado forma.


Então eu a vejo.


Dois homens estão a carregando em direção a uma pira. Ela não é minúscula como Temperança. Tem a altura de uma guerreira e ombros largos, que um dia já estiveram jogados para trás tanto em momentos de alegria quanto arrogância.


Sua pele está cinza e seus membros nada além de ossos. As maçãs do rosto se destacam, algo me diz que se ela estivesse bem nutrida esse seria o traço mais bonito depois dos seus olhos. Íris de terra molhada e folhas de outono.


Sua cabeça estava cheia de cortes, alguém havia raspado o cabelo e levou junto suas sobrancelhas. Era como se um esqueleto estivesse andando. A mulher usa um vestido azul escuro, com mangas longas e uma abertura profunda no peito, mal se podia dizer que tinha seios.


Um desenho de um cavalo marinho estava tatuado no seu esterno. A imagem tomada pelas cicatrizes, deformada demais para se mostrar nítida. Mas no fundo, eu sabia o que era. Quase consigo sentir a sensação de relevo sobre a pele fina.


Os homens a amarram ao pilar e Agatha não protesta. Escora sua coluna e mantém seus olhos no céu nublado. Nunca vi uma criatura tão sem esperança.


Uma mulher vestindo preto está sentada em um trono, exatamente em frente do que em breve seria uma fogueira. Seu rosto é o exato padrão de beleza, nariz fino e reto, olhos azuis e cabelo loiro avermelhado. Ela parece velha e jovem ao mesmo tempo.


“Quais são suas últimas palavras, bruxa?”


A mulher de azul suspira e passa seus olhos pela multidão. Eu sei o que ela vê. Tanto ódio e maldade em cidadãos comuns. Não há raiva só nos rostos da nobreza, mas também da população que sustenta a cidade.


“Com a minha morte Ur se encherá de cinzas, nos ventres das mulheres, nos olhos dos homens, no coração das crianças. Nada vai nascer ou crescer aqui. Até o dia que vocês finalmente entenderem quem é o seu inimigo. Eu os amaldiçoo para viver o resto das suas miseráveis vidas na sombra do ódio que semearam. Porque até mesmo na morte, vocês não enxergam as mãos dos Deuses”.


Agatha fala com monotonia, como se estivesse recitando um texto decorado. Não há expressão nenhuma no seu rosto e, quando a pira é acesa, ela parece não sentir. Seus olhos ficam vidrados no céu e se tornam vazios.


Antes da dor chegar, sua alma tinha deixado o corpo.


Observo seu vestido pegando fogo, sua pele derretendo e o grito de um garoto apaixonado preso no castelo. A pior sensação toma meu peito, quando vejo seu rosto antes de tudo isso acontecer.


Ela sorri para mim, seu cabelo castanho escuro e grosso entrelaçado nos meus dedos. Sinto suas mãos subirem pelos meus braços e suas unhas apertando a pele do meu pescoço. E, antes de acordar ela me chama por um nome que nunca escutei antes.


“Achei que jamais te veria de novo, Orion”.

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  • samirazorkot

Essa autora não se faz só de livros de 500 páginas sobre amazonas e guerreiros de Outro Mundo. Conheça o novo lançamento, programado para setembro! Ano passado, encontrei uns rascunhos de textos antigos meus. Eles foram escritos entre 2014 e 2016, representando uma época da minha vida muito diferente. Ali começou a semente de escrever poesia. Não sou boa com rimas, então podemos dizer que se trata mais de histórias em formato de poemas. O que começou a ser plantado ano passado, hoje tem sua continuação prestes a ser lançada. Meu próximo livro se chama: "Sombra de Vênus". Fala muito de amores impossíveis, relacionamento à distância e como o tempo muda as pessoas, no entanto, alguns frutos persistem. Em 2020, quando lancei "Caminho no Sol", foi uma questão de três dias para escrever "Sombra de Vênus". De duas uma, foi um surto criativo, ou eu tinha mais para falar do que imaginava. Para quem quiser, já está disponível em pré-venda clicando aqui. #poesia #poemas #sombradevenus #samirazorkot

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